A Sacerdotisa Primal

A Sacerdotisa Primal

Autor – Gustavo Lopes

Gênero – Mistério/Suspense/Horror

Vocês podem encontrar o autor pelo Facebook, ou pelo Blog! E o seu ilustrador (que chique, não?) pelo Facebook!

✶✶✶

Sentaram-se os dois à mesa de reuniões e tiraram os papeis das mochilas. Trocaram os relatórios de mão e se declinaram nas poltronas de couro para ler. Yago e Brendo se encontravam uma vez por mês na central da empresa em que trabalhavam. Yago era responsável pela inspeção de frigoríficos ao redor do estado, enquanto Brendo fazia os relatórios de verificação dos fornecedores em fazendas espalhadas pelo interior. A função da dupla era avaliar se o processo de distribuição de carne funcionava da maneira adequada. O trabalho pagava bem, principalmente quando o dinheiro vinha por fora.

Alguns frigoríficos não estavam totalmente adequados para armazenar suas carnes, bem como algumas fazendas não seguiam os processos humanizados no abate dos animais, mas, para Yago e Brendo, o dinheiro falava mais alto. Gordas quantias liberavam qualquer exceção, até mesmo um caso em comum que acabaram descobrindo quando se encontraram no final daquele ano.

— Tem certeza que essa queda de 15% na distribuição total está certa? — Perguntou Brendo ao colocar o relatório de Yago sobre a mesa.

— A quantidade não bate com a parte do seu relatório, essa parte aqui, — Yago sublinhou com o lápis um trecho numérico do relatório do colega — destinada a outros fins, se somar todas as quantidades que você colocou que não são destinadas aos frigoríficos do estado, e comparar com os anos anteriores, este número não passava de 10%. Está aqui. Garoto, o que você andou fazendo?

— Caramba Yago, isso com certeza vai chamar a atenção da gerência, porém, contudo, todavia… — Brendo fez uma pausa e deu um sorriso de canto de boca — se você alterar os seus números, eu altero os meus.

— Larga de ser burro, garoto! Até uma criança pegaria essa discrepância se somar os meus relatórios mensais. Isso é tudo culpa sua! Como pôde alterar os seus relatórios desse jeito? Seremos auditados… Ferrou!

Brendo sacou um cigarro do bolso do paletó e o acendeu, usando um copo de café pela metade como cinzeiro. Levantou da cadeira e se aproximou da janela. A mão tremia. Em silêncio, tragava a fumaça e soprava para fora, encarando a placa de “Proibido fumar” e pensando em uma solução.

— Pior, vão descobrir sobre a peste… — suspirou, depois de uma longa tragada.

— Peste? Que merda de peste?

— Quase todas as fazendas que visitei me fizeram pedidos especiais para desviar as quantidades para outros fins. Sabe como é, né? Mas é bem provável que grande parte destes 25% tenha sido atingido pela peste. Somente os pequenos fornecedores não foram atingidos, ou não quiseram declarar, se aproveitando dos desvios de quantidade.

— E o que é essa peste, garoto? — Yago apontou para o chão, e Brendo percebeu que não estava mirando as guimbas dentro do copo.

— Eu fui pago pra mudar os números, não pra fazer perguntas. Só sei que tem menos animais na contagem por causa dessa peste.

— Brendo, seu imbecil, quantas vezes eu vou ter que te ensinar a atender pedidos especiais? Você precisa saber com o que está lidando! Eu te disse isso no primeiro dia!

— E quanto aos seus números? — Apagou o cigarro e voltou para a mesa. — Você não recebeu pedidos especiais de ninguém? Nada muito fora do padrão?

— Só o usual. Eu estou nessa há muito tempo, muito antes de você colocar esse paletó e brincar de adulto. Eles reclamavam que a quantidade de carne recebida estava menor e pediam pra colocar um pouco a mais nos relatórios, mas se for contar o que eu alterei, mais os 15%, significa que a queda é de pelo menos 25%!

— Eu sei, acabei de te falar… Puta que pariu… — Os dois pausaram a conversa por longos minutos. Olhavam para todos os cantos da sala cinzenta, menos um para o outro. — Como vamos desfazer essa merda?

— Vou conversar com o chefe, sei lá, ano passado quem estava no seu lugar foi demitido por algo parecido. Aposto que desta vez nós dois vamos perder nossas férias por isso, pelo menos!

 

Enquanto esperava Yago, que não voltava fazia horas, Brendo roía as unhas da mão direita e com a esquerda somava os relatórios das formas mais mirabolantes possíveis numa folha à parte. O resultado divergia demais do padrão para que não desconfiassem do furo. Brendo nunca teve parcimônia quando se tratava dos pedidos especiais em seu quase um ano na função, só se atentava ao dinheiro engordando na conta bancária como jamais esteve, porém, imaginava ser fruto de um crescimento em ambas as partes do negócio. A peste não passou por sua cabeça — não tinha ideia do que acontecia nos bastidores, também não investigou o que era — nem mesmo as quantidades de Yago. Roía as unhas pensando numa auditoria. Ouvia colegas falando sobre os procedimentos detalhados e profundos das auditorias, e suas graves consequências para quem tinha o azar de passar por uma. Mas Yago era experiente. Disse que daria um jeito, ou que tentaria. Fé. Depositou sua fé no companheiro de trabalho e aguardou na sala de reuniões.

Jimmy “Gordo” — não sabia do apelido e ninguém conseguia pronunciar seu sobrenome — cancelou as férias dos dois aos berros e perdigotos. Yago se comprometeu em acompanhar Brendo em novas visitas aos fornecedores, para fazer o que chamavam de aproximação média. Todos os resultados do ano seriam aproximados com base nas quantidades apontadas no novo relatório, que só deveria acontecer quinze dias depois, para os maiores fornecedores mais próximos, após a virada do ano. Yago respirou fundo ao fechar a porta de madeira da sala do chefe e voltou à sala de reuniões. Deu um tapa na cabeça do colega e contou sobre o triunfo.

No dia seguinte, pegaram a estrada no Landau enferrujado e azulado de Yago e se dirigiram à fazenda dos Blunt, um dos maiores fornecedores de carne do estado, e também o mais próximo da sede da empresa. Brendo queria conversar, e Yago colocou o último álbum do David Bowie nas alturas. Planejava passar o Natal com a esposa, longe das fazendas, longe da civilização, cama em frente à lareira, chalé no meio do mato… Agora dirigia ao lado de um imbecil. A mulher esbravejou no Skype. Se estivesse do outro lado da ela, esmurraria Yago por confiar demais nos colegas de trabalho. Não era a primeira vez que algum cometera um erro que dificultava a vida dos dois, mas Yago gostava de trabalhar sozinho, fazer sua parte e voltar para casa, não tinha paciência com a molecada da geração Y que a empresa insistia em contratar. Eram como aquele garoto espinhento de gel no cabelo que estava ao seu lado. Depois do primeiro desvio, se corrompiam até o osso e não pensavam antes de receber outro bolo de notas. Aceitavam tudo o que vinha pela frente e não tomavam cuidado em esconder seus rastros. Yago deveria trabalhar em equipe com aqueles garotos, insistia Jimmy “Gordo”, mas apesar da carcaça não passar os quarenta, a alma de Yago era de um eremita. Pensava em arranjar um trabalho daqueles que ficava em casa, cujo único contato com o mundo externo era através do computador, nem telefone queria, mas os vinte anos cômodos na empresa pesavam na escolha.

Yago queria se livrar logo da confusão. Faria a inspeção nos Blunt durante o dia e voltaria ao hotel antes do anoitecer. Repetiria o mesmo no dia seguinte até finalizar as maiores fazendas e começar a aproximação média do relatório. Não deu escolha para Brendo, que encarava a escala de visitas impressa e bufava, abafado pela voz envelhecida de Bowie. Acabara de cancelar a viagem ao Brasil com os colegas — trinta dias de praia, mulher e samba. Yago o proibiu de negociar com Jimmy “Gordo”. Qualquer tentativa inútil de implorar por suas férias seria encarada como uma afronta, demissão certeira. Queria acender um cigarro, e Yago tomou o maço de sua mão e jogou pela janela. O garoto não gostava daquele silêncio barulhento, entretanto, não tinha intenção de mudar a situação e enfezar Yago ainda mais.

Estacionaram o carro em frente ao casarão dos Blunt e tocaram a campainha. O dono atendeu a porta, ainda de pijamas. Arregalou os olhos e colocou os óculos.

— Veja se não é o garoto Brendo! — Exclamou em tom rouco, abraçando o garoto franzino. Depois estendeu a mão a Yago e fez sinal para entrarem. — O que te traz aqui tão perto do Natal? Só esperava te ver depois das festas.

— O garoto Brendo fez uma trapalhada — intercedeu Yago — e agora estamos aqui para um novo relatório de fornecimento, se não se importar com a visita inesperada. Faremos uma recontagem de seus bois, vacas e porcos, além da inspeção de costume.

— Mas o garoto Brendo já fez isso… semana retrasada, não foi? — O garoto confirmou com a cabeça. — Justo hoje estamos no meio de um processo, não estamos preparados para receber uma visita de inspeção.

O homem corpulento parou no corredor, próximo a uma estante de madeira. Colocou a mão fora do alcance da visão dos dois. Um barulho metálico.  A porta dos fundos estava escancarada, exibindo um vislumbre do pasto.

— Desculpe-me, senhor Blunt, mas de acordo com seu contrato junto à nossa empresa, as visitas não precisam ser agendadas. Nós fazemos isso por uma questão de relacionamento com vocês, parceria, mas por conta do erro do Brendo, precisamos fazer isso quanto antes. Se nos dá licença, precisamos…

— Senhor Yago, creio que não será possível que o senhor faça esta visita. — O fazendeiro tirou a mão da estante, revelando uma pistola prateada com empunhadura dourada. — Veja, hoje não é um bom dia para isso e o seu garoto foi pago pelo serviço especial, como de costume.

— Calma aí… senhor Bl.. Blunt, — gaguejou Brendo — não queremos causar problemas, o senhor me conhece, de muitos anos, pega leve. Se não fizermos isso nós mesmos, em algum momento o pessoal da auditoria vai vir no nosso lugar, e eles não são tão parceiros como nós.

O homem coçou a cabeça com o cano da pistola e ficou em silêncio por alguns instantes.

— Qual é o itinerário de vocês? Sei que vocês têm um itinerário.

— Não tem nada lançado no sistema, mas a sua fazenda seria o destino mais lógico — respondeu Yago.

— Bom, neste caso, vamos conversar no café.

Blunt seguiu pelo corredor até a sala de jantar. Estava na hora do café da manhã. O fazendeiro pediu um prato extra para cada um dos convidados e sentou-se. Colocou a arma na mesa e se serviu com uma xícara de café. Yago pegou o celular embaixo da mesa e ligou o gravador.

— Senhor Blunt, Brendo mencionou que sua fazenda, assim como muitas, está sendo afetada por uma peste. Pode falar mais sobre isso?

— Sim, a peste… — o homem fechou o olho e tomou um gole do café saindo fumaça. — Veja, vou abrir o jogo, somos parceiros, certo? É por causa da peste que hoje não era um bom dia para vocês estarem aqui… — tomou outro gole e colocou a xícara na mesa. — Mas posso mostrar-lhes mais tarde o que ela significa.

O restante do café da manhã se passou em silêncio.

Blunt trocou o pijama pela roupa de couro e levou os dois para um passeio de trator pelo pasto. Era notável que o número de animais era consideravelmente superior ao apontado no relatório de Brendo, que apenas declarou a quantidade a pedido do fazendeiro. Yago encarava os números e as dezenas de animais a mais. Não teve coragem de questionar as divergências, nem o passeio, que logo se tornou uma viagem. Blunt fez questão de mostrar os hectares úteis da fazenda, exibindo seus cavalos de diversas estirpes, os bois Angus, os porcos e javalis roliços, alimentados com restos da produção de vinho, e a produção de vinho, e a produção de queijo.

Yago e Brendo comparavam alguns números do relatório antes do Sol se por. A Lua já apontava no céu atrás deles, quando ouviram Blunt desligando o motor do trator, em uma clareira isolada por quilômetros ao ar livre, no meio do nada. Blunt desceu e fez sinal para os dois o acompanharem.

— Veja, garoto Brendo — disse o fazendeiro, sacando a arma da cintura. — Nós já sabíamos que você iria cometer este erro. Todo ano é a mesma coisa.

— Não exatamente, senhor Blunt, — intercedeu Yago, se afastando do garoto — esta é a primeira vez que o processo foi tão descarado. Nos anos anteriores não passou de 10%.

— Sim, eu entendo, mas este foi um ano cheio. As coisas saíram do controle e nosso acordo com os frigoríficos enfraqueceu. Felizmente vocês estão aqui, para fazerem parte do acordo anual.

— Acordo? — Perguntou Brendo. — Que tipo de acordo vamos fazer aqui no meio do nada? A empresa sabe que… — o garoto se recordou do apontamento da visita, ou a falta dele e se calou.

— Silêncio, garoto. Estou falando com seu amigo. — Blunt deu um tiro na perna de Brendo, que caiu se contorcendo como uma minhoca que acabara de ser removida da terra. – Se gritar, vai levar outro.

— Ficou maluco!? — Gritou Yago, dando dois passos para trás. — Isso vai acabar chegando nos ouvidos da nossa gerência.

— Não vai, pois você não vai deixar. Veja, todo ano é assim, sempre foi e sempre será. Desde que você faça o seu trabalho, hoje só teremos um sacrifício.

Blunt deu um segundo tiro, desta vez na coxa esquerda de Brendo. Ele mordeu as costas da mão para não gritar. O sangue escorria formando trilhas na calça de linho cinza, enquanto ele se virava de um lado para o outro na grama molhada. Uma silhueta surgiu no horizonte vermelho, com dois chifres apontando para cima e o vestido esvoaçante. Chegando mais próxima, a silhueta revelou uma mulher de corpo curvilíneo com vestes esfarrapadas de seda e um crânio de um boi, pequeno, sobre a cabeça. Ela arrastava um objeto em suas costas, que se revelava brilhante a cada passo. A grama voava por onde ela passava, como se um cortador de grama a acompanhasse. Ela sorria com dentes amarelados, destoantes de sua beleza, e o olhar fixo na direção de Brendo.

Sacou uma espada do tamanho de sua perna, com a ponta bifurcada. Tinha símbolos estranhos entalhados na lâmina e a empunhadura formada por quatro crânios esculpidos na madeira.

— Sacerdotisa primal, eis aqui o seu sacrifício — clamou o fazendeiro apontando para o garoto agonizando.

— O que está fazendo, Blunt? — Yago não queria acreditar que aconteceria diante de seus olhos. Sabia dos rumores, mas não imaginava que aquilo era a peste.

— Todos os dias fazemos sacrifícios em nome da sacerdotisa primal. Em troca, temos sua proteção e diversas regalias em vários centros que cultuam as faces ocultas do livro negro ao redor do mundo. Agora que o Vassalo foi escolhido, foi preciso intensificar os sacrifícios para manter a força primal em curso. Alguns cabras se irritaram, como o pessoal dos frigoríficos, mas você, meu caro Yago, vai resolver esse problema para nós, ou então terá o mesmo destino que seu garoto Brendo.

A sacerdotisa caminhava lentamente com o por do sol em suas costas. Blunt guardou a pistola no cinto e, ao mesmo tempo em que a arma encaixou com um clique, a mulher apareceu diante de Brendo, cravando a espada no chão aos seus pés. A espada reluziu, e uma luz que alternava entre tons de verde e roxo surgiu ao redor dos dois, como uma aura.

— Apesar dos sacrifícios regulares em seu nome, — continuou o fazendeiro — uma vez ao ano, a sacerdotisa primal precisa de sangue humano para se alimentar. Só um cabra é o bastante.

— Por que está me contando isso? — Indagou Yago, sem saber se acudia Brendo ou permanecia distante.

— Não me interrompa — Blunt atirou para o alto. — Não são todos que estão dispostos a se arriscar para lhe entregar esta oferenda, acho que esse ano foram os McDouglas que se comprometeram. O velho Donald engravidou a esposa só pra isso, com medo da polícia investiga-lo de novo. Mas olha só que coincidência. Mandei uma mensagem pro Donald e ele me deixou fazer as honras. Um bebê não vale tanto quanto uma criança, e uma criança não vale tanto quanto um adulto.

A aura verde e roxa serpenteava ao redor da sacerdotisa e de Brendo. Yago vislumbrava os dois lá dentro, uma visão distorcida por algo no ar, que se parecia com ondas de calor, como se olhasse através de uma chama, mas não notou diferença na temperatura. Também percebeu que sacerdotisa entoava um cântico gutural e num idioma desconhecido que ultrapassava a barreira da aura, enquanto o som da voz de Brendo era abafado do lado de dentro. Os olhos do garoto viraram para dentro e a boca aberta parecia que arrebentaria a qualquer instante.

— Olha só que coincidência boa — o fazendeiro deu alguns passos para trás, sem tirar os olhos da sacerdotisa. — Se não fosse por vocês terem aparecido justo hoje, justo hoje, estaríamos sacrificando apenas os animais de costume. Agora, com esse sacrifício, com esse garoto, eu finalmente receberei a Marca, e você terá a honra de presenciar o processo.

E o processo começou.

Com cortes tão rápidos quanto o bater de asas de um beija-flor e com a precisão de um chef de cozinha, a sacerdotisa desmembrava Brendo, fatiando seu corpo em pequenas lâminas, dos pés até a cintura, empilhando-as ao seu lado. Primeiro a perna direita, depois a esquerda. O garoto desmaiou antes dela chegar nos braços. Ao terminar de fatiar um membro, ela espremia as lâminas de carne em sua boca e deixava o sangue escorrer. Depois jogava a carne seca no chão.

Yago virou o rosto logo que o banquete começou. Fechou os olhos e ouviu um clique.

— Testemunhe — ordenou o fazendeiro, apontando a arma.

Entre golfadas de vômito e lágrimas, Yago permaneceu ajoelhado diante da sacerdotisa, assistindo o sacrifício sem perder um só momento. Assistiu ao colega que a pouco queria reclamar do trabalho — viu o garoto cancelando suas férias pelo celular e as mensagens que enviou aos amigos — se tornar uma pilha de carne fatiada, como nos frigoríficos que visitava. Pensou que seria o próximo. Pensou na esposa em casa, que deixara de passar mais um feriado ao seu lado. Pensou no chefe gordo e idiota, mas justo, depois de tantas presepadas. Pensou nas vacas e nos porcos pendurados nos frigoríficos. Colocou-se no lugar, pendurado por um gancho dentro de um congelador industrial.

Quando restaram somente o tronco e a cabeça, a sacerdotisa degolou o garoto e colocou a cabeça de pé na grama, encaixando a base do pescoço na terra. Então, fez um corte de baixo para cima no resto do corpo, como se fosse dissecar Brendo. Mas logo Yago entendeu que não se tratava de um procedimento exploratório. O banquete continuava. Um a um, a sacerdotisa arrancou os órgãos do garoto e os chupou até murcharem. Removeu os ossos e os jogou de lado, como se estivesse comendo um peixe espinhento. Torceu o tronco desossado e o espremeu na boca. Por fim, com uma pequena adaga, a sacerdotisa descascou a pele da cabeça, removeu os olhos, a língua e o cérebro, os colocou em um prato preto, que surgira da palma de sua mão, e o estendeu para Blunt, com um sorriso vermelho. O fazendeiro hesitou. Yago percebeu que o café da manhã subiu e encheu a boca do homem. Ele engoliu a mistura de café, ovos e bacon, e mandou um olho inteiro para dentro. Deixou o cérebro por último e o consumiu em três mordidas largas.

A sacerdotisa tocou a testa do crânio vazio de Brendo e uma aura verde emanou de dentro do buraco onde poucos minutos atrás estava seu cérebro. Os olhos do crânio de boi na cabeça da sacerdotisa brilharam e a aura esverdeada foi sugada para dentro deles. A mulher então jogou o crânio vazio no ar e os restos mortais de Brendo espalhados pela grama se tornaram fumaça. Ela lambeu os beiços e se aproximou de Blunt, introduzindo devagar seu indicador no peito do fazendeiro.

— A escuridão está vindo, todavia, seus olhos enxergarão. — Sua voz era doce e grotesca, como sua beleza gótica destoando de seus dentes. — Cantará a canção, sua língua saberá. A evidência não é clara, mas perceberá. Receba a Marca.

Uma coluna de chamas esverdeadas envolveu Blunt. Enquanto ele gritava e queimava, a sacerdotisa segurou o rosto de Yago, paralisado, e lambeu o vômito que restava em seus lábios.

— Prove. Esta é a escuridão que espera aqueles que não confiam no livro.

O fogo desapareceu tão rápido quanto a sacerdotisa se desfez em sombra. Blunt emergiu nu, sem nenhuma queimadura. Ele gargalhava, olhando para o céu. Yago percebeu a ausência da pistola e da sacerdotisa, e correu. Correu pela grama até o casarão e do casarão até o carro. Não conseguia encaixar a chave na fechadura. Tremia com o molho na mão, tilintando contra a lataria do carro.

Bateu a porta, ligou o Landau e acelerou, arrebentando os portões de madeira da fazenda e seguiu sem rumo. Não sabia se seguia na direção da cidade. Apenas acelerou.

Apareceu na sede da empresa dois dias depois. Procurou o chefe e admitiu o verdadeiro erro nos relatórios mensais, esperando ser demitido por falsificar informações. Tomou a decisão no carro, assim que seguiu seu caminho pela noite, mas deliberou sozinho no hotel sobre as consequências de sua escolha até tomar coragem. Não planejava contar tudo, apenas o suficiente para justificar o erro mais recente. Entregou nas mãos de Jimmy “Gordo” o relatório grifado e com os números reais rabiscados nas laterais da folha. Sentou-se, e esperou ele passar os olhos em cada uma das vinte e oito folhas.

Jimmy “Gordo” sorriu e jogou o relatório no lixo.

— Fico feliz que finalmente quebramos essa barreira — comentou Jimmy. — São poucos na empresa que sabem sobre a sacerdotisa.

Yago engoliu seco.

— É tão bom poder contar com mais gente que sabe a verdade — continuou o chefe, reclinando a cadeira presidencial de couro marrom. — Não há motivos para continuar com essa coisa da aproximação média. Eu dou um jeito com o pessoal da contabilidade que está no esquema. Você ia passar o Natal com sua esposa, não ia? Pode ir. Com o bônus que acabei de depositar na sua conta, poderá esquecer o que aconteceu, por enquanto. Feliz Natal e um ótimo Ano Novo. Assim que sair, feche a porta.

Yago se levantou e deixou a sala. A secretária de Jimmy arregalou os olhos quando viu sua expressão. Caminhou até a saída, entrou no Landau e permaneceu no estacionamento deserto da empresa até o sol se por, em silêncio, encarando o rádio do carro desligado. A visão do sol vermelho se pondo entre as montanhas embrulhou seu estômago. Imaginou a silhueta da sacerdotisa primal no horizonte e chorou. Chorou até as lágrimas secarem, e então saiu, sabendo que jamais esqueceria aquela visão, e que estava preso a algo muito maior do que jamais imaginou.

✶✶✶

Queríamos deixar aqui uma notinha sobre um trabalho maior do autor!

Para os interessados, o Gustavo tem um livro publicado no Wattpad! Chama-se O Inominável, e você pode encontrar o livro também no Luvbook!

Vamos deixar a imagem de divulgação aqui, só pra dar aquele gostinho 😉

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