O Trem 313 (Parte 1)

 

Meu pai não tinha muito mais que 30 anos quando foi promovido a chefe ferroviário, em meados de 1960, quando nos mudamos para o interior de São Paulo. Mais precisamente, para perto de uma das estações de trem, da qual meu pai seria responsável desde então.

Nossa casa era pequena, simples e bastante humilde, e ficava bem próxima dos trilhos de trem, de forma que podíamos vê-los das janelas dos quartos. À época estávamos com dez anos, meu irmão e eu.

Eu e Sebastian somos gêmeos idênticos e, desde muito cedo, possuíamos uma ligação bastante curiosa. Não era incomum que um soubesse o que o outro estava pensando e vice-versa. Também não era incomum que estivéssemos sincronizados em nossas maneiras de nos vestir. Lembro-me que certa vez fui passar alguns dias na casa de minha avó e Sebastian ficou na casa de nossos pais. Quando voltei, Sebastian estava exatamente com a mesma roupa que eu: uma bermuda jeans e uma camiseta vermelha. E essa não foi a única vez que isso aconteceu.

Logo que nos mudamos para o interior, fizemos amizade com alguns moleques que moravam na mesma rua. Camilo, um rapaz franzino da casa ao lado, Jorge, um rapaz negro que morava a cinco casas da nossa, Beto e Jaime, os irmãos ruivos que moravam na rua debaixo. E não demorou para que um dos nossos passatempos favoritos se tornasse ficar até tarde na rua, em roda, contando histórias para assustar os demais.

– Vocês já ouviram falar no trem 313? – Perguntou Jorge, certa noite, lançando-nos olhos arregalados – O trem 313 passa nesses trilhos exatamente às 3h da manhã.

Disse, apontando para os trilhos do trem que passavam próximos às nossas casas.

– Cala a boca, Jorge – interrompi – Não tem nenhuma linha às 3h da manhã. A última passa às onze horas e a próxima é somente às cinco e meia. Eu sei porque meu pai é o chefe ferroviário.

Jorge imediatamente caiu na gargalhada, acompanhado de todos os demais meninos, à exceção de Sebastian, que também olhava intrigado para o grupo.

– Não, babaca – Jorge enfim disse, em tom de deboche – O trem 313 não é uma linha como outra qualquer. É um trem diferente, que nem todos podem ver ou ouvir. Dizem que é um trem demoníaco, um antro dos pecados, e que todo aquele que o ouve é hipnotizado, tomado por uma vontade incontrolável de ver o maldito trem.

– E o que acontece quando a pessoa vê o trem?

Perguntou Sebastian, apreensivo. Sebastian sempre fora o gêmeo medroso, o mais covarde de nós dois, ao passo que eu era aventureiro e metido a querer saber das coisas.

– Ninguém nunca voltou para contar.

Disse Jorge. Sebastian estremeceu e se enroscou em meu braço esquerdo. Eu o repeli, rindo.

– Cagão.

Eu disse, debochando, e todos rimos. Jorge prosseguiu:

– Mas calma! Há uma solução. Quando você ouve o trem, já na primeira vez, você deve sair imediatamente da cidade e nunca mais voltar. Somente assim você escapa do trem 313.

Sebastian permaneceu alguns segundos com olhos estatelados, fixos em Jorge. Eu subitamente encostei em seu braço, gritando “olha o trem 313!”. Meu irmão saltou, aos berros, e todos rimos.

– Como você é ridículo, Benjamin!

Ele disse, irritado, sentando-se novamente ao meu lado. Aquela fora apenas uma das inúmeras histórias que Jorge nos contara, algumas até mais assustadoras e mais bem encenadas. Não dei muito bola e meu irmão pareceu se esquecer da tal lenda assim que Jorge partiu para a próxima história.

Meses se passaram até que, certa noite, acordei com a sensação de ter observado alguma movimentação no quarto. Sebastian e eu dormíamos no mesmo quarto, em camas que ficavam lado a lado, separadas por um móvel de cabeceira.

Abri os olhos, ainda sonolento, e deparei-me com meu irmão em pé, junto à janela do quarto, olhando fixamente para fora.

– Sebastian?

Resmunguei, esfregando os olhos. Durante alguns instantes, ele pareceu me ignorar, mantendo-se imóvel. Pouco depois, porém, respondeu-me sem, contudo, despregar os olhos da janela.

– Você ouviu isso, Benjamin?

Sua voz soou trépida.

– Ouvi o que?

Perguntei, confuso. Sebastian permaneceu em silêncio durante mais alguns instantes, até que, enfim, desabafou:

– Acho que ouvi o trem 313.

Eu gargalhei. E não foi pouco.

– Cala a boca, Sebastian. Vai dormir.

– Estou falando sério – Ele revidou, soando agoniado – Realmente ouvi o barulho do trem. Acordei e olhei no relógio e eram exatamente 3h da manhã.

Um pouco impaciente, sentei-me na cama.

– Não, Sebastian. Você não ouviu nada. Você sonhou com isso e agora está com medo. Apenas isso.

Somente então notei que meu irmão estava tremendo. Permanecia encarando os trilhos do trem e, de fato, parecia bastante amedrontado. Levantei-me e caminhei até perto dele, levando minha mão ao seu ombro.

– Sebastian, vai dormir. Não existe trem 313, ok? Era só uma história.

Meu irmão balançou a cabeça, em um gesto positivo, e então dirigiu a mim um par de olhos lacrimejados.

– Eu sei. É claro que é só uma história.

Não tardou para que essa mesma cena se repetisse. Mais algumas madrugadas acordei com meu irmão parado junto à janela, os olhos vítreos nos trilhos do trem, o corpo trêmulo. Meses se passaram até que em uma noite fria de Julho ouvi o ranger da porta do quarto.

Abri os olhos e deparei-me com o relógio, que ficava na cabeceira, entre as duas camas: 3h da manhã. A cama ao lado estava vazia e então despertei de vez. Sentei-me e então notei uma sombra passando em frente à porta do quarto.

– Sebastian?

Indaguei, um pouco confuso. Ele parou em meio ao corredor, virando-se para mim. Ostentava um estranho semblante apático. Prossegui.

– Aonde você vai?

– Na estação.

– De trem?

– Sim.

– Fazer…?

Ele suspirou, resignado.

– Ver o trem 313.

Creio que levei algum tempo para conseguir esboçar qualquer reação, tamanho absurdo aquilo me soava.

– Você está louco? – Consegui dizer, finalmente – Está um frio do caramba lá fora. Volte para cama e pare de delirar.

Sebastian permaneceu parado no corredor, encarando-me com notório desinteresse. Segundos após, deu-me as costas e continuou caminhando em direção à porta da sala, que dava para a saída da casa.

Dei de ombros, cobri-me e fechei os olhos. Pretendia voltar a dormir e ignorar aquela esquisitice do meu irmão, mas não consegui.

Sebastian era medroso e sair madrugada adentro, no frio e no escuro, sozinho, em busca de uma lenda urbana me pareceu desconexo demais com sua personalidade. O Sebastian que eu conhecia estaria entocado no quarto, encolhido embaixo das cobertas, e certamente rezando vinte ave marias.

Além do mais, ele era meu irmão e eu não conseguiria voltar a dormir sabendo que ele estava lá fora, delirando com algum medo ridículo de uma historinha que ouvira. Decidi ir atrás.

Suspirando, um pouco colérico, alcancei uma blusa sobre o armário e segui pelo corredor, na ponta dos pés, até a porta da sala. Se meus pais acordassem e descobrissem que estávamos saindo de madrugada, estaríamos condenados a algumas surras e um fim de semana de castigo. Talvez a coisa pior.

A porta da sala estava aberta. Sebastian não estava mais na rua, mas eu sabia onde encontra-lo. Corri até a estação de trem, que àquelas horas estava fechada, e adentrei os trilhos por uma pequena cerca ao lado da estação, que estava fechada, mas possuía grandes espaços por entre as vigas de madeira.

– Sebastian?

Sussurrei, inclinando o tronco para frente, evitando pisar diretamente nos trilhos. Ele estava lá. Parado no meio dos trilhos do trem, de costas para mim, imóvel.

– Sebastian?

Chamei novamente, mas ele parecia não me ouvir. Continuava parado, os braços pendurados ao lado do corpo, a cabeça levemente tombada para baixo. Corri até ele e, encolhendo-me de frio, estendi uma de minhas mãos até o ombro do meu irmão. Ele estremeceu, como se despertasse de um sonho. E em seguida virou apenas a cabeça na minha direção.

– Sebastian, vamos embora. Está muito frio aqui.

Meu irmão olhou-me demoradamente, encarando-me de um modo quase letárgico. Em seguida, virou o restante do corpo em minha direção e sorriu. E foi naquele sorriso que eu notei que havia alguma coisa errada.

– Vamos! – Ele disse – Você tem razão.

Deu-me um tapa no ombro e caminhou em direção à cerca, para sair dos trilhos. Eu o segui. Fomos em silêncio pela rua, até chegarmos em casa. Sebastian cruzou o corredor, adentrando o quarto, e então enfiou-se embaixo das cobertas, em sua cama. Eu fiz o mesmo, mas desta vez quem não conseguiu dormir fui eu.

CONTINUA…

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