Os Reis do Fim

Os Reis do Fim

Autor – Gustavo Lopes

Gênero – Mistério/Suspense/Horror

Vocês podem encontrar o autor pelo Facebook, ou pelo Blog! E o seu ilustrador (que chique, não?) pelo Facebook!

✶✶✶

Era a quinta noite seguida em que Tom bebia até ser carregado para casa.

O dono do bar Rage, Morrell, era um antigo conhecido, e já estava perdendo a paciência, desde que a esposa de Tom o largou, ele se tornou um freguês mais que frequente. Permanecia da hora em que o bar abria até a hora em que fechava. Tom pelo menos pagava, mas sua tristeza espantava os desavisados.

Morrell preferia não se envolver na vida pessoal daqueles que frequentavam seu bar, apesar das pessoas insistirem em balbuciar o tempo todo sobre suas lamurias e sonhos. Acreditava que, se não se envolvesse, poderia continuar enchendo seus copos sem pensar em mais nada além dos negócios. Sentimentalismo em um bar era bom para quem desabafava e ruim para quem era obrigado a ouvir.

O caso com Tom era diferente.

Tom não costumava beber, nem demonstrar seus sentimentos desde criança. Um garoto isolado, estranho, que acabou sentando ao lado de Morrell na escola. Desde então, Morrell conhecia aquele que existia por trás da fachada sombria do fúnebre garoto que colecionava crânios de animais mortos e cortava seus pulsos como gesto de rebeldia, apesar dos dois não serem tão próximos. Tom cresceu e mudou, porém, atraiu para si uma mulher tão “estranha” quanto ele, Natascha, que o isolou do mundo. Morrell preferiu não se envolver, ainda mais a partir do momento em que serviu o primeiro gole a seu antigo conhecido.

Nas quatro noites que precederam a quinta, Morrell fechou o bar, arrastou Tom para dentro de seu próprio carro, o levou até em casa e voltou para a sua a pé. E no dia seguinte, Tom fazia tudo outra vez. A quinta à noite era um domingo.

Morrell não abria seu bar na segunda-feira, então resolveu levar Tom para a sua casa ao invés de largar o bêbado sozinho por mais uma noite. Ele o deixou dormindo no sofá da sala, forrado com um plástico duro, caso vomitasse, e dormiu numa poltrona logo ao lado. No dia seguinte, Tom acordou com a cara amassada e o olhar caído.

– Onde eu estou? – Perguntou Tom, limpando os olhos.

– Na minha casa, Thomas.

– Só minha mãe me chama assim, quando está enfezada comigo.

– E eu também. Não é pra menos. Cinco noites seguidas, Thomas? Cinco noites fazendo drama e dando um show no meu bar? Sabe que eu odeio sentimentalismo de boteco, sempre soube. Só não te expulsei porque ainda me resta alguma estima por você, mas está na hora de se ligar, dar um jeito nessa situação.

– Ela se foi, aquela vadia.

– Sim, eu ouvi você repetir isso umas mil vezes enquanto gastava sua grana comigo. Já chega! Sim, ela se foi, acabou, chega de se lamentar!

– Você não entende, Morrell, nunca se casou, nunca amou ninguém, não sabe como dói…

Morrell desferiu um soco no rosto de Tom antes que ele voltasse com o discurso das cinco noites passadas.

– Faz cinco anos que você não me vê, não sabe da minha vida, nem do que está falando. Foi você que brigou comigo quando eu disse que Natascha era tão louca quanto você era, e que devia se afastar de gente que te levava pra baixo. Foi você que não me ouviu e ainda foi parar no meu bar, nesse estado deplorável. Você nunca foi bom com álcool, está tarde pra mudar isso.

– Eu… Amava ela…

Tom bradava e chorava enquanto o efeito do álcool permanecia em seu sangue. Uma gemada e duas xícaras de café o deixaram mais estável para conversar. Morrell não queria saber o que aconteceu. Ainda assim, emprestou seus dois ouvidos para o antigo camarada contar sua história, desta vez, sóbrio.

– Ela te deixou pra ir pro interior? Do nada?

– Foi… Ela disse que conheceu um cara que podia elevar seu espírito e que o meu estava preso demais a essa vida mundana. Natascha é uma pessoa espirituosa, estava sempre envolvida com essas coisas.

– Olha cara, não sei como ela tem coragem de ir pro interior. Tem acontecido umas coisas bem sinistras por lá.

– Do tipo?

– Você não assiste televisão? Ficou no jornal por um bom tempo.

– Eu não tenho televisão em casa. Natascha dizia que a TV manipulava nossas cabeças e jogou a que eu tinha fora.

– Essa mulher… enfim, faz um tempo que rolou umas coisas macabras por lá, encontraram umas mulheres mortas, tráfico de órgãos, tudo por trás de uma seita esquisita. Teve uma época que só passava isso na TV.

– Isso tem quanto tempo?

– Um ano mais ou menos. As reportagens pararam do nada, mas ainda leio na internet vez ou outra umas teorias.

– Morrell, por que se interessou por essa história? Achei que você era católico.

– Não é uma questão de religião. Uma pessoa que eu conhecia acabou aficionada por esse caso e até se mudou pro interior.

– E quem era?

– Um colega… nós não éramos tão próximos assim.

– Você nunca foi próximo a ninguém.

Os dois passaram o dia jogando conversa fora e tomando algumas, poucas, cervejas. Antes de anoitecer, Morrell seguiu Tom de carro até sua casa e lá começaram a encaixotar as coisas de Natascha, que deixou tudo para trás em sua jornada pela ascensão espiritual. Tom estava relutante, todavia se convenceu de que deveria separar as coisas da ex, para caso ela fosse buscar.

Morrell se assustou quando entrou na casa de seu colega de infância.  O portão cinza sem graça e a entrada ainda em reforma escondiam uma podridão rústica do lado de dentro. As paredes eram manchadas de bolor e marcas de terra. Inúmeros vasos de planta estavam espalhados pelos cômodos, ao ponto de algumas plantas baterem no teto e continuarem crescendo, espalhando raízes pelas paredes. Havia tapetes, incensos, utensílios feitos com madeira e ossos. Na geladeira só legumes, folhas e tubérculos.

– Natascha dizia que apesar de vivermos em meio a civilização moderna, temos que buscar nossas raízes nos antepassados, numa jornada de desapego material.

– O discurso da sua ex era muito bonito, mas isso aqui está parecendo um lixão. O banheiro está todo sujo de sangue. Não me diga que…

– Era dela… Ela dizia que…

– Esquece, eu não quero saber o que ela dizia. Vamos limpar essa bagunça.

Enquanto procurava por algo de útil no meio de tantas camadas de tecidos e móveis usados, Morrell notou um símbolo que chamou sua atenção, bordado no centro de um tapete enrolado no canto do quarto. Quatro coroas de vinhas entrelaçadas formavam um circulo, rodeado de desenhos tortos de árvores e corvos.

– Tom, onde vocês conseguiram esse tapete?

– Um conhecido de Natascha deu a ela de presente quando fomos visitá-lo. Ele também fazia parte do grupo de pessoas que pensavam como ela.

– Que grupo?

– Não tinha bem um nome. Era mais um grupo de pessoas com ideias espirituais semelhantes, essa história do desapego, de natureza…

– Pode me levar até a casa dele, desse conhecido?

– Agora?

– Quando quiser. É muito longe?

– Não, mas acho que já é tarde…

– Tudo bem, vamos amanhã.

– Mas e o bar?

– O bar pode esperar.

No dia seguinte, logo cedo, Morrell apareceu na casa de Thomas. Levando o tapete consigo, foram até a casa do conhecido de Natascha, um homem chamado Martes, que os recebeu com um sorriso e os convidou para entrar.

O interior da casa do homem de Martes era tão rústico quanto a de Tom, mas o tapete com as quatro coroas estava exposto no centro na sala, aos olhos de todos que entrassem na residência.

– Martes, este é meu amigo Morrell.

– Muito prazer, senhor Morrell, em que posso ajudá-lo? – Disse o homem calmamente. – Thomas disse que gostaria de conversar comigo, mas não me revelou o assunto.

– Trouxe o tapete para refrescar sua memória, mas vejo que tem um igual aqui em sua sala.

– Então você também faz parte?

– Não exatamente, mas conheço uma pessoa que tem grande interesse na Coroa.

– Ora, A Coroa não existe mais. – Riu Martes. – Nem Os Filhos do Amanhã Vazio e os Corações que Anseiam. Agora somos os Discípulos dos Reis do Fim, agora que os quatro se encontraram.

– Mas não abandonaram a coroa como símbolo, não é mesmo?

– Os símbolos são semelhantes, mas nossas crenças não são. Elas estão em constante evolução, conforme é revelado no livro. Por falar nisso, Natascha já te deixou, Thomas?

– Sim…, mas… como sabe disso?

– Você não compartilha de nossas crenças, então ela optou por deixá-lo. Mas fique feliz por ela. Natascha conheceu os quatro reis e foi escolhida por eles para a Grande Partida.

– Grande Partida? – Thomas sentiu seu estômago embrulhar.

– Acontecerá daqui a três dias, onde ficava a joia da Coroa. Mas nem tente aparecer por lá. Somente serão permitidos membros e aqueles que querem ser salvos.

– Mesmo que tenhamos interesse em nos juntar aos Discípulos dos Reis do Fim? – Indagou Morrell.

Martes ficou algum tempo encarando Morrell. Foi até um cômodo nos fundos e voltou com algo nas mãos.

– Pegue isso. – O homem entregou dois pedaços de pano com o símbolo das quatro coroas, sujo de sangue. – Se apresentarem o convite às sentinelas, serão bem-vindos.

– Pode me conseguir um adicional? – Pediu Morrell, se aproximando de Martes. – Conheço outra pessoa que gostaria de estar presente num momento tão importante como esse.

– Tudo bem, eu pego mais um pra você. Posso distribuir até cinco destes, mas como está em cima da hora acho difícil conseguir mais interessados, então pode levar. Nos encontramos lá.

– Pode apostar que sim.

Os dois voltaram para a casa de Morrell. Thomas não entendia o interesse de seu colega no ritual, porém um cenário foi surgindo conforme ouvia as repetidas mensagens que o colega deixou em uma caixa postal, até receber uma ligação.

– Renkse, sou eu, Morrell. Sei que não quer conversar comigo, mas eu encontrei uma pista sobre o caso que você estava investigando.

Morrell contou ao homem do outro lado da linha sobre os Discípulos dos Reis do Fim e a Grande Partida, que estava para acontecer. Ao desligar, correu para o quarto e voltou com duas malas.

– Espero que não tenha nenhum compromisso marcado, pois vamos viajar.

– Eu não sei se quero me envolver com essas coisas…

– Você quer encontrar Natascha, não quer?

– Sim…

– Então venha comigo, e quando a vir, não fraqueje. Exija uma explicação. Só assim você vai sair dessa, eu acho…

A dupla caiu na estrada com um destino: a cidade do homem no outro lado da linha, Renkse. No caminho, Morrell contou a Tom que Renkse é seu meio irmão, do segundo casamento de seu pai. Eles eram muito próximos e continuaram assim por muito tempo, mesmo quando cada um seguiu seu próprio caminho. Morrell assumiu o bar que pertencia ao seu tio e Renkse optou pelo celibato.

A amizade com seu irmão mais novo se tornou vaga quando o então formado padre passou a perseguir uma seita envolvida com casos de desaparecimento de mulheres, assassinatos e tráfico de drogas, chamada A Coroa. Renkse ajudou as forças especiais do governo a desmantelar o grupo, que prometera que aquele não seria seu fim. Enquanto seus aliados se ocuparam com dezenas de outros casos, Renkse continuou sua busca pelo legado da Coroa, sem sucesso, até a descoberta de Morrell.

– Quanto tempo, meu velho irmão. – Disse Renkse, ao receber Morrell e Tom em sua modesta casa de madeira, no meio da floresta.

– Quanto tempo, meu já não tão novo irmão.

– Quem imaginaria que você descobriria algo tão importante para mim. Você, que zombou de mim quando eu disse que este mundo era cheio de escuridão e os piores terrores.

– Sabe que eu não sou um religioso praticante, mas a televisão soube como atrair minha atenção para o seu caso.

– O que a TV mostra não é bem a verdade por trás desse caso, ainda mais agora, se falando dos Reis do Fim.

– Você disse que ia explicar melhor quando chegássemos.

– Pois sim. Acomodem-se e tentarei explicar o pouco que sei.

Renkse, Thomas e Morrell sentaram-se à mesa rústica de madeira da cozinha, servidos com alguns pedaços de pão e molho.

– Nos registros que consegui do dia em que desmantelamos a suposta sede da  Coroa, existem várias menções sobre os Reis do Fim, bem como outros possíveis braços dessa religião disforme. Por um tempo, desconfiei que era só uma fachada para o tráfico de órgãos e mulheres, como foi mostrado pela mídia. De certo, os homens que estavam por trás da Coroa a utilizaram para seu próprio lucro, porém esta não era a verdadeira intenção deles. As mortes, as mulheres, estava tudo ligado ao livro negro.

– E o que seria esse livro? – Indagou o irmão.

– Eu não sei bem, pois nunca o vi pessoalmente, mas imagino que seja como uma Bíblia para eles. Eu desconfiava que A Coroa, Os Reis do Fim e outras seitas tinham alguma ligação. E agora com o que você me contou, sobre o tal do Martes e a evolução da crença, talvez elas sejam uma coisa só… e o que liga todas estas seitas é a presença de um livro negro, com uma capa cheia de penas e um esqueleto de um corvo. Eu tentei buscar por uma cópia até no mercado negro. Nada. Boatos dizem que ele aparece para as pessoas, que não pode ser encontrado ou comprado.

– E o que você sabe sobre os Reis do Fim?

– Um conhecido meu se infiltrou na seita e conseguiu tirar fotos de algumas páginas do livro antes de desaparecer… Como o livro não é escrito numa sequência, como uma história, um registro dos eventos da religião, e sim como uma série de poemas, cânticos, cuja interpretação talvez nem mesmo os integrantes da própria religião saibam o que verdadeiramente significa, fica difícil dizer. Pelo que pude interpretar, os Reis do Fim são homens escolhidos pela Morte para encontrar o Vassalo, num ritual que está detalhado no livro negro. No último poema das fotos que recebi, é citado que os quatro Reis do Fim encontram o Vassalo e é no Vassalo em que a Morte será incorporada, na Grande Partida.

– O que acontece depois, meu irmão?

– O texto dos Reis do Fim acaba neste ponto e segundo meu contato, o restante das páginas do livro estava em branco. Como as forças especiais concluíram que os desaparecimentos posteriores à dissolução da Coroa não tinham relação com algum ato que pudesse indicar a continuidade do culto, nada do que eu possa fazer pode chamar a atenção deles agora. Estou sozinho nessa.

– Você não está sozinho. Estamos com você, meu irmão, mas o homem que nos deu esses convites disse que podia distribuir até cinco deles. Isso pode significar que a tal da Grande Partida será um evento cheio de gente. Você não vai conseguir impedir nada.

– Eu não posso e não vou impedir nada, mas eu preciso ver o que vai acontecer. Se o restante das páginas estava em branco, a Grande Partida pode ser o fim, e se esta seita conseguir invocar alguma entidade maligna com este ritual, eu preciso me preparar para o pior.

– Entidade? Tipo um demônio?

– Eu sei que você não acredita, mas essas coisas existem e estão entre nós.

– E você já combateu alguma entidade antes?

– Não, mas sei quem pode me ajudar, se eu conseguir provar.

– Como pode achar que a Morte não é maligna? – Intercedeu Tom, com a xícara de café tremendo em suas mãos. – A morte é o fim!

– O fim, em sua essência, não é maligno. O fim é apenas um evento inevitável, a única certeza que temos. A Coroa era uma entidade monstruosa que usava as pessoas, matando-as e até mesmo vendendo seus órgãos, porém é possível que as intenções do livro negro tenham sido mal interpretadas. Já suas “evoluções”, como os Discípulos dos Reis do Fim, não chegaram a tanto, pelo menos não que eu tenha conhecimento. Seus atos estão fora do radar, como se eles fossem apenas mais uma religião secreta, mas não podemos descartar que muitas pessoas desapareceram desde que a Coroa foi “destruída”, mesmo que nenhum corpo tenha sido encontrado até agora. Por fim, o que eu quero dizer é que a Grande Partida, o objetivo dos Reis do Fim, pode ser tanto um fim benigno quanto maligno para este “estágio” da evolução espiritual deles. É isso que eu quero entender.

– Já vim até aqui, não vou voltar atrás. Eu vou contigo. Thomas?

– Quero saber o que farão com Natascha… acho que não tenho escolha a não ser enfrentar isso com vocês.

O dia da Grande Partida chegou. Na entrada da cidade isolada do interior, palco de uma conspiração sangrenta no ano anterior, homens fechavam a única estrada de acesso. Ao mostrar os convites, Morrell foi autorizado a estacionar o carro num campo aberto, ao lado de centenas de outros. A Grande Partida atraiu milhares, como Renkse jamais imaginou. Mal podia-se ver alguma coisa entre as árvores e pessoas do lugar. O local, onde outrora era uma cidade, não passava de um grande campo aberto que antecedia uma floresta de árvores, cujas copas pareciam tocar as nuvens.

A hora do ritual foi anunciada por uma voz oculta na multidão, que ecoou pela floresta.

– Discípulos e simpatizantes. Agradeço a presença de todos. Hoje será um dia histórico. A Grande Partida acontecerá e mesmo que seus olhos não possam presenciá-la, seus corações estremecerão diante da Morte. Este dia desafiará suas mentes, mas acreditem, acreditem no fim. O fim já começou e vocês, Discípulos ou simpatizantes, farão parte de seu grande propósito. O Vassalo está entre nós.

– O Vassalo está entre nós. – Gritaram centenas.

– Eu sou o Vassalo e ofereço meu corpo e espírito para os quatro Reis do Fim.

– É a voz de Natascha! – Gritou Thomas. – Natascha, sou eu! Tom!

A voz de Tom foi sumariamente ignorada por sua ex-mulher, e mal ouvida pelos demais. Renkse pediu silêncio e o ritual continuou sem pausa há centenas de metros adiante, sem que pudessem enxergar nada, apenas ouvir.

– O primeiro Rei aceita o Vassalo.

– O segundo Rei aceita o Vassalo.

– O terceiro Rei aceita o Vassalo.

– O quarto Rei aceita o Vassalo.

– Morte, aceita-me como seu Vassalo. – Clamou Natascha. – Vinde a mim e abra os portões do Fim!

Ao terminar a frase, a mulher deu um grito que estremeceu os ouvidos dos presentes. O céu ficou negro. Como uma pedra que caiu na água, ondas de escuridão pulsavam do centro do céu ao redor do local onde estaria Natascha, no meio da multidão, e ascendiam aos céus, enquanto ondas de luz roxa atravessavam o chão, passando por todos, que sentiam seus corações doloridos.

Duas grandes asas negras de corvo se destacaram da multidão, e uma mulher nua, com os cabelos acinzentados e no lugar de seu rosto um crânio de bode, voou para cima, e desapareceu nas ondas do céu. A multidão se dispersou, sem que Morrell, Thomas, ou mesmo Renkse entendessem o que havia ocorrido. Restaram apenas quatro homens em capas roxas no centro da floresta. Renkse foi até um deles e o questionou.

– Meu bom homem, sou apenas um simpatizante. O que aconteceu?

– A Morte ascendeu com suas asas negras. Você vislumbrou a morte,  Renkse.

O padre arregalou os olhos enquanto o homem sorriu para ele. Renkse não conhecia o homem, como poderia saber seu nome?

– Percebe o quão insignificantes somos diante de um ideal? Nada mais importa, você agora é um Corvo. Quando o verdadeiro fim chegar, será salvo por Myrkur.

– Onde está o livro?! – Insistiu o padre.

– Ele cumpriu seu propósito, por hora.

– Espere, onde está…?

Os quatro homens viraram-se de costas e andaram em direção ao centro da floresta, onde a mata era mais densa e a escuridão mais profunda.

Thomas e Morrell voltaram para suas casas com os corações cheios de incertezas, porém, sua amizade foi fortalecida com aquele momento em que não sabiam se seus olhos os enganavam ou se havia sido real. Já para Renkse, o trabalho estava apenas começando. A busca pelo livro emplumado continuava, mesmo que nada mais estranho tenha acontecido meses após a Grande Partida.

✶✶✶

O Gustavo já é conhecido do Noite do Bardo, e o primeiro conto que ele enviou para publicação em nosso blog foi A Coroa!

Também é válido lembrar que o Gustavo é autor do livro O Inominável! E vocês podem acessar o link clicando diretamente na imagem abaixo. O livro está concorrendo ao prêmio Wattys 2017! Quem sabe ele não merece seu voto? 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.