Anísio

Anísio

Autor – José Rubens

Gênero – Cotidiano

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Anísio era um homem comum, dentro de um meio de vida comum. Era solteiro, nem muito velho e nem muito novo, salário médio e tudo o que se pode acrescentar na esfera do medíocre, lá estava Anísio.

Sua única particularidade era que Anísio gostava muito de freqüentar velórios, e alguns de seus conhecidos viam aquilo como uma simples forma de respeito pelas pessoas, outros viam como um passatempo mórbido que ele poderia eventualmente ter e nunca revelara a ninguém. Mas a grande maioria nem se dava conta disso, pois a esfera da mediocridade onde se encontrava Anísio também pode ser estendida ao seu âmbito social.

A verdade era que Anísio já havia desistido da redenção viva e idealizava a redenção morta: o momento em que toda a injustiça que havia vitimado o sujeito seria corrigida, onde todo o amor e o respeito sufocados viriam à tona e a única ocasião em que os medíocres poderiam responder à bajulação com a indiferença e frieza com que um artista pomposo responde aos fãs mais alucinados e febris.

Anísio freqüentava qualquer velório, desde que o caixão estivesse aberto e ele pudesse olhar para o rosto do defunto, ele olhava o sofrimento e as lágrimas daqueles que sentiam o baque da perda com o interesse de uma criança curiosa. Depois de saborear o vazio da perda daqueles desorientados contemplando o falecido, Anísio olhava para o rosto do morto e via a total falta de emoção, a vitoria diante de anos vivendo como uma lacuna social que vestia calcas pela manhã e saía caminhando como um cão sem rumo. Aquele seria o momento em que Anísio poderia se vingar de toda uma civilização que o tratava como um nada.

Para amenizar seu passeio funesto, Anísio interagia com os presentes no velório dizendo amenidades:

– Ele parece tão tranqüilo, parece até que está sorrindo.

Geralmente essa fala fazia com que ninguém ali percebesse que nunca havia visto Anísio até aquele momento, pois dizer que um morto sorri parece ser a deixa universal para eximir de pesos e culpas quaisquer atitudes dos presentes para com o finado enquanto ele ainda era vivo. Dizer que um defunto sorri é a forma mais efetiva de cortejar uma família e absolvê-la de todos os seus pecados ou omissões para com o falecido em vida.

Outra fala genérica que Anísio costumava usar para suavizar sua presença naquele ambiente era:

– Deus sabe o que faz, ele está em um lugar melhor.

Outro dito interessante, atirar a morte nos braços de Deus funciona bem também, atribuir uma tragédia ou o fim de um longo processo de desgaste ao edificante solo celestial, o qual explicará toda a ignorância humana e solucionará todos os problemas. Já que não temos capacidades para olhar diante do espelho e aceitar que somos e sempre seremos incapazes de entender coisa alguma, e vamos, a cada amanhecer, varrer os destroços da nossa desesperança para baixo do tapete e fingir que não tem nada acontecendo.

Quando estava em casa, Anísio gostava muito de deitar na cama e interpretar um finado, enquanto imaginava quem estaria em seu velório: as poucas ex-namoradas que tivera, todas chorosas e desconsoladas pois Anísio havia dado a elas um amor tão intenso que elas não acharam coisa parecida em lugar algum depois dele, os indiferentes, que até aquele momento nunca haviam reparado na grandeza de Anísio, a família, os amigos etc.

Um dia, Anísio vinha dirigindo por uma rodovia e perdeu o controle do carro. O veículo derrapou e só foi encontrar o marasmo da inércia na traseira de um caminhão, Anísio morreu na hora e seu corpo foi completamente desfigurado, como um escarro proveniente do acaso, Infelizmente, por conta da dimensão que a fatalidade teve sobre seu corpo, o caixão de Anísio se fez presente lacrado durante toda a cerimônia fúnebre.

Não fez diferença, pois ninguém deu a mínima para a sua morte. Aliás, ninguém é exagero, seu velório foi apenas mais um momento medíocre nas esferas de mediocridade que formavam a vida de Anísio: apenas uns gatos pingados, entre amigos, conhecidos e familiares.

A sorte de Anísio foi morrer como um escarro proveniente do acaso, pois, se morresse de outra forma, a indiferença de seu cadáver soaria ridícula por conta da escassa platéia, e ele ficaria muito irritado se visse sua redenção murchar diante daquela sala quase vazia.

 

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